Além do preço pago pela tonelada de grão, um mercado paralelo vem ganhando peso nas decisões de quem planta, processa e exporta milho e soja no Brasil: o dos créditos de descarbonização conhecidos como CBios. Criados no âmbito da política nacional de biocombustíveis, o RenovaBio, esses certificados recompensam a produção de etanol e de biodiesel por sua contribuição para a redução de emissões de gases de efeito estufa, e isso tem efeitos diretos sobre a demanda por matérias-primas agrícolas.

Como o mecanismo se conecta à lavoura

Na prática, distribuidoras de combustíveis são obrigadas a cumprir metas individuais de descarbonização, compradas na forma de CBios emitidos por usinas de etanol e plantas de biodiesel. Quanto mais eficiente for o processo produtivo dessas usinas em termos de emissões, maior a quantidade de créditos gerada por litro de combustível. Isso cria um incentivo adicional para a produção de etanol de milho, hoje consolidada em diversas regiões do Centro-Oeste e também em polos mais recentes do Brasil central, e para o biodiesel feito a partir do óleo de soja, já tradicional na matriz brasileira.

Um fator a mais na equação da demanda

Para empresas exportadoras, o tema importa porque amplia o número de variáveis que influenciam o apetite doméstico pelos grãos. Historicamente, o mercado interno e o mercado externo disputam o mesmo volume de milho e de soja produzido no país. Quando o mercado de CBios está mais aquecido, cresce o incentivo para transformar parte dessa produção em combustível, o que pode reduzir, em alguma medida, a disponibilidade de grão destinada à exportação em determinados períodos do ano-safra. Já em momentos de menor atratividade desses créditos, a tendência é de maior disponibilidade do grão para os canais tradicionais de comercialização externa.

Esse tipo de dinâmica não deve ser lido como uma ameaça, mas como mais uma peça do quebra-cabeça que compõe o chamado basis, ou prêmio de exportação, discutido com frequência no setor. Entender a lógica dos créditos de descarbonização ajuda produtores, tradings e compradores internacionais a antecipar movimentos de oferta e a planejar melhor a logística de escoamento ao longo da safra.

Sustentabilidade como vetor de competitividade

Do ponto de vista de reputação internacional, o avanço dos biocombustíveis brasileiros tende a reforçar a imagem do país como fornecedor de matérias-primas associadas a cadeias produtivas mais limpas, um argumento que vem ganhando espaço em negociações comerciais e exigências de compradores em diferentes mercados. Para cadeias como a do milho e da soja, a conversa sobre descarbonização deixou de ser apenas um tema ambiental e passou a fazer parte do debate comercial, ao lado de fatores como câmbio, clima e frete.

Acompanhar esse mercado paralelo de créditos, ao lado dos indicadores tradicionais de oferta e demanda, é parte do trabalho de quem atua na exportação de commodities agrícolas e precisa antecipar, com a maior clareza possível, os movimentos que afetam a disponibilidade e o fluxo de milho e soja ao longo do ano.

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